“Então quem pode nos separar do amor de
Cristo? Serão os sofrimentos, as dificuldades, a perseguição, a fome, a
pobreza, o perigo ou a morte? Em todas essas situações temos a vitória completa
por meio daquele que nos amou. Pois eu tenho a certeza de que nada pode nos
separar do amor de Deus: nem a morte, nem a vida; nem os anjos, nem outras
autoridades ou poderes celestiais; nem o presente, nem o futuro; nem o mundo lá
de cima, nem o mundo lá de baixo. Em todo o Universo não há nada que possa nos
separar do amor de Deus, que é nosso por meio de Cristo Jesus, o nosso Senhor”.
(Romanos 8.35, 37-39)
A
pergunta pela presença de Deus em meio ao sofrimento sempre retorna a cada
catástrofe acontecida, a cada perda de uma pessoa querida, a cada acidente sem
explicação e, talvez de forma não tão explícita, a cada momento de dificuldade
e dor que temos de enfrentar em nossa vida. Lembro, em especial, de um
acontecimento que ainda está muito presente em nossos pensamentos e em nossas
conversas. No entanto, a reflexão e incompreensão que este fato provocou não é
um fenômeno isolado. Ela acontece sempre que somos tomados pela dor.
O
acontecimento a que me refiro se trata da tragédia ocorrida em Santa Maria, em
janeiro deste ano. Talvez, diante do ocorrido, muitos de nós nos fizemos uma
pergunta: “Por quê?” “Por que Deus permite uma coisa dessas?” Como um Deus que
confessamos ser todo-poderoso pode deixar que esses jovens morressem de uma
forma trágica e tanta dor viesse sobre suas famílias?
Apesar
de todo o esforço da mídia e da justiça em busca de uma explicação, de um fator
causador de tamanha tristeza, ainda não se conseguiu encontrar resposta e
conforto para as famílias que perderam seus entes queridos. Toda a mobilização
das autoridades também não é suficiente para atribuir uma razão ao que
aconteceu.
Quando
passamos por algum período de tormenta em nossa vida, fica difícil crer nas
palavras de Cristo, quando ele diz “eu vim para que vocês tenham vida, e vida
em abundância” (Jo 10.10). Deus é confessado por nós como “Deus Pai,
todo-poderoso, criador do céu e da terra”. Mas, na hora da dor profunda, da
angústia, vem a pergunta: “Por que Deus permitiu?” Porém, creio que também nos
cabe fazer outra pergunta: “Será que Deus realmente permitiu?”
Reflita
comigo: Deus nos ensina a cuidarmos de nossa vida como um dom precioso! E por
isso, temos a incumbência de também cuidarmos uns dos outros. Ele nos ensina a
vivermos com dignidade a partir da partilha, do serviço e do amor! Foi Deus
quem fez um show pirotécnico em um ambiente proibido? Foi Deus quem estava na
porta permitindo a superlotação do ambiente em questão? Foi Deus quem construiu
apenas uma saída de emergência?
A
vida de Cristo nos mostra que a vontade de Deus é muito diferente das centenas
de mortes. Em todo o seu falar e agir, Jesus sempre apontou para a vida que
Deus cria e mantém. Ele sempre ensinou, ajudou, animou, curou e salvou. Nunca
fez algo que promovesse a morte e o sofrimento. Portanto, também não era da
vontade de Deus que os jovens em Santa Maria falecessem. O ocorrido é fruto da
irresponsabilidade humana. Quando o ser humano esquece-se de Deus, ele o
desrespeita e pode colocar em perigo a vida, tanto a sua como a de outros.
O
que significa então dizer que Deus é todo-poderoso? Como ele pode ser
todo-poderoso se ele não pode evitar o sofrimento? Significa não pensar no seu
poder como mágicas sobrenaturais. Deus não é um mágico. Deus é amor. É disso
que a Bíblia nos dá testemunho. Acima de tudo, Deus é amor. Todo-poderoso
significa que ele tem a primeira e a última palavra sobre a realidade, sobre a
criação. Ele é o princípio e o fim, e não a morte e o sofrimento o são. Deus é
todo-poderoso em amor. Sua fraqueza se torna a força para salvar e redimir a
humanidade. Foi o que ele fez na cruz. Deus, na sua expressão mais fraca e
impotente, se tornou a maior força salvadora para a humanidade.
Onde
estava Deus, então, naquela noite da tragédia na boate Kiss? O Deus poderoso em amor estava lá, sufocando em meio a fumaça
com seus filhos e filhas. Estava lá com os bombeiros tentando apagar o fogo.
Estava lá com os voluntários quebrando paredes na esperança de ainda encontrar
vida. Estava lá chorando com as mães e pais. Estava lá recebendo os mortos em
seus braços. E esteve também nos hospitais com os jovens e médicos que lutavam
pela sua recuperação. O Deus amor se manifestou através da solidariedade de
inúmeras pessoas para com aqueles e aquelas que ainda choram.
Onde
está Deus na hora em que passamos por um momento difícil e doloroso?
Certamente, ele não está sentado num trono de ouro, assistindo tudo o que nos
acontece lá do céu. O Deus todo-amoroso esta justamente ao nosso lado, nos
ajudando a enfrentar e passar pela tempestade. A revolta para com Deus, a
dúvida fazem parte do sofrimento. Mas, negar a Deus na hora da tragédia não faz
o sofrimento desaparecer. A razão pode não compreender. Mas o coração se agarra
na fé. Fé no Deus amor que nunca irá se conformar com o sofrimento. Essa fé tem
a certeza de que Deus se compadece da sua criatura e tem a promessa de todas as
lágrimas serem enxugadas.
O
Reformador, Martim Lutero, também refletiu sobre a angústia e tristeza que nos
sobrevém na dificuldade. Ele concluiu que as respostas que procuramos, nem
sempre encontraremos. Entretanto, temos a certeza de na hora mais escura e
tenebrosa, encontraremos um Deus amoroso que nos acompanha e segura a nossa
mão, até que tenhamos atravessado o perigo. Compartilho com você algumas
palavras de Lutero: “Deus faz com que as coisas sempre vão morro acima, morro
abaixo e, logo, outra vez, morro acima. Ora é noite, ora é dia, e logo volta e
ser noite, e nem sempre é dia. O dia e a noite se sucedem, assim que ora é
noite, ora é dia e, logo em seguida, é noite outra vez. É assim que ele governa
a sua igreja cristã, como mostram todas as histórias do Antigo e do Novo
Testamento. E isso se chama força, a saber, que o Senhor não é conselheiro e
consolador daqueles que se limitam a palavras e não fazem nada além disso. Não,
ele também ajuda para que tudo seja superado. Quando estamos em meio à
tentação, ele nos dá seu fiel conselho e nos fortalece com sua palavra, para
que não desfaleçamos de fraqueza, mas possamos ficar firmes”.
Querido
leitor, querida leitora, confiemos e nos entreguemos às mãos protetoras de
Deus, tendo a certeza de que nada nos separa do seu amor!
Continue
a refletir lendo o Salmo 27.