Ensina-nos a contar os
nossos dias, para que alcancemos um coração sábio. (Salmo 90.12).
Há alguns dias, eu me flagrei olhando para
o calendário e pensando: “Nossa! Como o ano está passando rápido! Já estamos no
final do mês de outubro. Faltam só mais três folhinhas para arrancar do
calendário!” Então lembrei de quantas coisas já aconteceram comigo neste ano.
O calendário serve para marcarmos a
passagem dos dias. Também para programarmos o que temos pela frente para fazer.
Ele contém os meses e semanas do ano e também os feriados. No calendário também
podemos marcar datas especiais como aniversários de nascimento e casamento e
outras festas. Mas, também há datas do calendário em que nos lembramos de dias
passados, difíceis de enfrentar, ou de pessoas que, nalgum dia, partiram antes
de nós.
Nós, cristãos, ainda temos um outro
calendário, além do calendário civil. É
o calendário litúrgico, que orienta e marca a vida da igreja. Ele não começa com
o mês de janeiro. Ele começa no fim do ano, no primeiro domingo de Advento, e
termina com o domingo Cristo Rei, também chamado de Domingo da Eternidade. Ao
invés de trazer as estações do ano, meses e semanas, o calendário litúrgico
traz os tempos litúrgicos: Advento, Natal, Quaresma, Páscoa, Pentecostes, tempo
comum. Assim, esses dois calendários marcam os dias e auxiliam a orientar a
nossa vida ao longo do ano.
Naquele dia, quando olhei para o
calendário e lembrei-me de tantas coisas, também me lembrei do que diz o Salmo
90.12: “Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos um coração
sábio”. O que será que o salmista quis dizer quando nessa oração ele pediu a
Deus que o ensinasse a contar os seus dias? Será que se tratava de saber contar
quantos anos, meses e dias ele já vivera? Certamente não é só isso. Contar os
nossos dias é muito mais. Contar os nossos dias é olhar para trás e perceber
com gratidão todos os momentos em que Deus esteve do nosso lado, nos amparando,
dando força e novo ânimo, e também se alegrando conosco.
É mais fácil olhar para trás e para o hoje
e agradecer pelas coisas boas que Deus nos deu: pai e mãe, esposo ou esposa,
filhos, irmãos, amigos, um trabalho e capacidade para trabalhar, uma casa, uma
comunidade onde podemos nos reunir como igreja de Jesus. Contar os nossos dias
e perceber quantas bênçãos Deus tem colocado em nosso caminho, reconhecer que
tudo isso vem das mãos de Deus nos torna gratos e gratas a ele pela sua
bondade, seu amor por nós. E também nos leva a pedir como o salmista pediu no
versículo 14 do Salmo 90: “Alimenta-nos de manhã com o teu amor, até ficarmos
satisfeitos, para que cantemos e nos alegremos a vida inteira”.
No entanto, temos consciência de que a
vida inteira não é feita só de alegrias, dos dias bons. Também acontecem
momentos de dificuldade e sofrimento, onde seguir em frente parece ser tão
complicado, onde nos sentimos fracos. Contar os nossos dias também significa
poder olhar para esses momentos e reconhecer que sozinhos, realmente, não teríamos
conseguido. Porém, a mão bondosa de Deus esteve ali nos sustentando, segurando
na nossa mão, até nos levantando do chão e carregando no colo quando
necessitamos. Deus nos dá consolo e força interior e coloca pessoas amigas em
nosso caminho, que nos ajudam e nos animam.
Também por esses dias difíceis em nossa
vida precisamos agradecer a Deus, porque ele é capaz de transformar o
sofrimento em alegria. Ele é o Deus que tornou em benção para toda a humanidade
a morte de seu filho Jesus. Ele transforma o mal em bem, as lágrimas em
sorrisos. Os dias difíceis fazem parte da contagem, fazem parte da nossa vida.
Contudo, somente com Deus eles têm um sentido para nós. Mesmo que, às vezes, só
descobrimos isso depois que o sofrimento passou.
No Salmo 90.1 lemos: “Senhor, tu tens sido
o nosso refúgio de geração em geração”. Deus mantém sua promessa, que fez a nós
no batismo, de estar conosco todos os dias de nossa vida. É a fé nessa promessa
que nós queremos ensinar às gerações que nos seguem, assim como nós também aprendemos
de quem veio antes de nós.
O escritor brasileiro Guimarães Rosa
(1908-1967) foi sábio em suas palavras, ao afirmar: “A coisa não está nem na
chegada nem na partida; está na travessia”. Assim, o mais importante não é
preocupar-se tanto com a chegada ou a partida, mas com o caminhar. Olhar para o
calendário nos lembra do que já caminhamos e nos faz pensar no caminho que
ainda temos a trilhar. E nós cremos que o mesmo Deus que está conosco quando
chegamos e quando partimos, também está conosco conduzindo nossos passos ao
longo do caminho.
E você? Como é que você tem contado os
seus dias? Que Deus nos abençoe com um coração sábio.
Beatriz
Regina Haacke


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