Estamos vivendo o tempo da quaresma, e logo estaremos vivenciando o
tempo pascal. Neste tempo percorremos novamente o caminho da cruz. Ao nos
deparar com a cruz não há como não escutar os gritos de Jesus. Um pouco antes
de morrer ele grita: Deus meu, Deus meu por que me desamparaste? (Mateus
27.46). São palavras fortes que expressam o mais profundo dos sentimentos do
Filho de Deus. Sentimentos esses que não estão apenas presentes no momento da cruz,
mas que na verdade caminham com Cristo a cada passo dado em Jerusalém.
Logo em sua chegada é recebido como rei pela multidão. Todos se
alegram, mas na verdade Cristo está sozinho. Ele sabe da euforia no momento da
vitória, mas também sabe que está sozinho no caminho até a cruz. O sentimento
de desamparo também se faz presente quando em lágrimas Cristo olha para
Jerusalém e constata que seu povo não quer saber dos profetas e dos mensageiros
de Deus. O sentimento de desamparo se faz presente quando sabe que haverá um
traidor, um dos seus apóstolos o negará e todos fugirão e ficarão atordoados e
perdidos. O sentimento de desamparo se faz presente, como nunca, no Jardim do
Getsêmani. Jesus diz: Sinto no coração uma tristeza tão grande, que parece
que vai me matar. Fiquem aqui vigiando comigo (Mateus 26.38). Jesus sente a
fragilidade de seus apóstolos. Ninguém consegue vigiar, todos dormem. O
sentimento de desamparo se faz presente no sofrimento físico das chicotadas,
nos espinhos em sua cabeça, no peso da cruz, nos pregos em seu corpo. Está
presente nas palavras “crucifica-o, crucifica-o”. Está presente nas
palavras de humilhação dos que assistem o absurdo da tortura, o absurdo da
cruz.
Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Na verdade, estas palavras são o grito de Jesus em nosso lugar. Alguém
certa vez disse: “A voz de Jesus na cruz
é a voz de todas as pessoas às quais só resta mais clamar a Deus”. Sim, é o
grito de todas as pessoas que se sentem desamparadas, se sentem abandonadas
pelas pessoas e por Deus.
Com este grito, Jesus assume na cruz a nossa situação humana de
pessoas desamparadas e solitárias. Em Jesus, Deus demonstra que não nos deixa
desamparados e desamparadas, mas nos carrega em seus braços. Ele vence a morte
para nos possibilitar vida. A partir da cruz todo desamparo por pior que seja
não pode mais nos separar de Deus. Podemos ler em Mateus 27.51: “Então a cortina do Templo se rasgou em dois
pedaços, de cima até embaixo...”. Nada mais pode nos separar do amor de
Deus. Nada mais pode estar entre eu e Deus, entre você e Deus...
Logo depois de Jesus demonstrar todo sentimento humano de desamparo,
logo depois de sua morte nós ouvimos o testemunho dos soldados romanos: Ele
era mesmo o Filho de Deus! (Mateus 27.54). Assim, a partir da morte e ressurreição
de Jesus não estamos mais sozinhos/as e desamparados/as. Deus conhece a nossa
dor, o nosso sentimento de desamparo. Deus nos carrega e nos ampara por mais
difícil e escura que seja a nossa vida. Pense nisso e tenha um tempo pascal
abençoado!


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